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A política carioca em quatro tempos

Resenha

A política carioca em quatro tempos

Marly Motta, Américo Freire, Carlos Eduardo Sarmento (organizadores).

Editora FGV

2004

Este é um livro importante para aqueles que se interessam pela história do Rio de Janeiro e do Brasil. Traz também uma bela contribuição para a renovação metodológica experimentada pela história política nos últimos anos, liderada por pesquisadores cariocas em universidades como UFRJ, UFF e o CPDOC/FGV.

O livro é uma coletânea ou antologia de artigos que tratam da história política do Rio de Janeiro em quatro momentos distintos, explicando os “quatro tempos” do título. São eles: 1 – capital do Império; 2 – capital da República; 3 – Estado da Guanabara; e 4 – Estado do Rio de Janeiro após a fusão. Os artigos derivam de teses de doutorado ou projetos de pesquisa tratando desta temática nos centros já mencionados.

Há uma influência fortíssima nesta geração da obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu e seu conceito–chave de campo político. Foi um aporte teórico fundamental para melhor compreensão das disputas políticas, dando maior ênfase às especificidades deste nível em relação aos demais na análise. Apesar de sua ausência nesta coletânea, vale destacar o papel de liderança exercido pela professora Marieta de Moraes Ferreira neste grupo, como orientadora de vários trabalhos e por meio também da publicação de diversos livros.

A distribuição dos artigos não seguiu o recorte cronológico. Eles preferiram organizar por temas. Na primeira parte Freire, Sarmento e Marly Motta parte se dedicam ao campo político, com trabalhos tratando de sua dinâmica, institucionalização e a questão da autonomia, que foi muito polêmica durante o período de Distrito Federal. Na segunda parte eles mesmos tratam mais de cultura política, buscando entender a fabricação da imagem de um dos principais prefeitos do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, e também a presença do carisma, com destaque para as icônicas figuras de Carlos Lacerda e Leonel Brizola. É ainda abordado um personagem oposto aos carismáticos, mais ainda assim essencial para se mapear a rotina do campo político carioca: Antonio de Pádua Chagas Freitas.

A terceira parte abrange eleições, centrando-se no papel do Jornal O Dia em 1954 e analisando ainda a radicalização que marca o campo político carioca e esta tensão entre carisma e rotina. Na quarta e última parte o foco vai para administração e política, concentrando-se na relação entre Executivo e Legislativo no período de Pereira Passos e Carlos Lacerda. Sarmento retira de sua tese de doutorado mais um artigo para analisar a máquina chaguista no governo da Guanabara (1971-1975) e, por fim, Marly Motta traz uma descrição das elites burocráticas contrapondo engenheiros e economistas.

Repito, trata-se de uma obra muito importante e cuja leitura eu recomendo. Para Cuiabá tem um apelo especial, pelos vínculos e semelhanças com o Rio de Janeiro. Uma das principais conclusões do livro é que a política carioca era indissociável da nacional, Daí a presença de vários líderes com este alcance lá, mesmo depois da transferência da capital para Brasília. No Estado de Mato Grosso também nas décadas após a divisão até 2002 a política estadual era inseparável também da cuiabana e vice-versa, pela condição de capital e maior concentrado de população e produção neste período. Quando olhamos os personagens carismáticos descobrimos aqui também Gilson de Barros, Padre Pombo, Milton Figueiredo e Dante de Oliveira, dentre outros. Só por isto, portanto, já vale a leitura.

Vinícius de Carvalho
Vinícius de Carvalho
Graduado em Administração (UFMT) Especialista em Administração Pública (UFMT) Mestrado em História (UFMT) Professor universitário de graduação (FEICS) e pós-graduação em várias instituições. Autor de dois livros e diversos artigos na área de gestão pública, história política e políticas públicas. Gestor Governamental do Estado de Mato Grosso desde 2001 Sócio e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (2012-2014) Ex-Presidente da MT Participações e Projetos S.A. do Governo do Estado de Mato Grosso (2015-2016). Analista político, com participação na internet, jornais e no programa de TV JMT, Conexão MT, O Livre da Bandeirantes e do programa de Rádio “Chamada Geral” da Mega FM.

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