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Chagas Freitas e o campo político carioca (1950-1983): liderança, voto e estruturas clientelistas

Resenha

Chagas Freitas e o campo político carioca (1950-1983): liderança, voto e estruturas clientelistas

Carlos Eduardo Sarmento

Editora Folha Seca

2008

Este livro é uma adaptação da tese de doutorado em História defendida pela UFRJ pelo autor. É mais um dos bons trabalhos gerados naquela instituição sobre a política carioca que tenho resenhado aqui, compondo uma série. Assim como os outros, este também é uma das principais referências na renovação da história política no Brasil, utilizando novas metodologias como o conceito de campo político trabalhado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu.

O principal aspecto a ser destacado neste trabalho é o fato de ser uma biografia do ex-Governador da Guanabara e do Estado do Rio de Janeiro Antonio de Pádua Chagas Freitas. O título “espelho partido da metrópole” dialoga com um artigo publicado por Marly da Silva Motta na Revista da Fundação Getúlio Vargas Estudos Históricos entitulado “Frente e verso na política carioca: lacerdismo x chaguismo”. Ambos indicam que a cultura política no Rio de Janeiro possuía personagens carismáticos e que se projetaram como atores nacionais e candidatos a Presidência da República, como Carlos Lacerda e Leonel Brizola, baseados em boa medida no seu carisma. Mas também havia o lado mais clientelista e provinciano daquela cidade, como qualquer outra, atendido por uma máquina política rotinizada, muito bem representado por Antonio de Pádua Chagas Freitas. Daí o “espelho partido”, além da menção à agremiação política.

De acordo com a nova história política a narrativa biográfica não se centra em descrever todos os principais acontecimentos pessoais e profissionais da vida de Chagas Freitas, mas utiliza este agente como uma lente por meio da qual todo o campo político pode ser mapeado, em particular por meio das suas relações. Dos “quatro tempos da política carioca” do outro livro que resenhei, três deles podem ser visualizados aqui: capital da república, Estado da Guanabara e Estado do Rio de Janeiro pós-fusão. Cada um deles com as respectivas mudanças nas configurações políticas. Além, é claro, do impacto do golpe militar de 1964, que cassou muitos detentores de mandato do antigo PTB e gerou um vazio de lideranças que mantinham maior interação com as camadas de menor renda no Rio de Janeiro, abrindo espaço a ser ocupado por Chagas Freitas.

A obra descreve como o biografado seguiu um padrão político muito comum no seu período. Estudou Direito no que hoje é a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), espaço privilegiado de socialização política dentro do chamado bacharelismo. Depois enveredou pelos também tradicionais caminhos de uma carreira no Ministério Público e na imprensa, com a criação dos jornais O Dia e a Notícia. Esta atividade jornalística foi resultado de uma importante parceria política entre Chagas e Ademar de Barros, Governador de São Paulo que disputou a Presidência da República em 1955. Com o esvaziamento do projeto nacional deste último, Chagas se apropriou dos meios de comunicação e fez dele a sua principal alavanca de poder político no Rio de Janeiro até o final de sua carreira.

Ao longo dos capítulos o leitor poderá identificar as estratégias políticas utilizadas pelos principais atores em cada conjuntura, como as alianças e candidaturas por exemplo. O papel da imprensa e dos sindicatos como máquinas políticas importantes para qualquer bom projeto, por sua capacidade de mobilização. O conteúdo editorial dos jornais de Chagas, numa época em que tais veículos eram instrumentos de propaganda política declarada, chegando a fazer campanha para os proprietários e profissionais da redação. Daí vem inclusive uma importante tradição no jornalismo político, que dificulta enxergar onde este acaba e começa que se chama hoje de marketing político.

Outro aspecto é a identificação das principais clivagens presentes no campo político. O que divide as forças num determinado momento? Como elas estão opostas? Pelo que estão brigando? Na obra é possível enxergar isto e também um projeto de poder em funcionamento, com a combinação de elementos como a imprensa, o controle dos partidos (PSP, PSD, MDB, PMDB), a máquina parlamentar conferida pelo mandato, o apoio da administração pública federal, o acesso aos cargos, as relações interpessoais, o carisma e também o sindicato.

Portanto, a escolha de Chagas Freitas foi muito oportuna, já que ele foi um personagem síntese do “verso” da política carioca dentre as décadas de 1950 a 1980. Embora renegado e odiado por muitos como representante do haveria de pior e pequeno na política, provou-se ser de importância fundamental para compreender a natureza da disputa entre o nacional e local que sempre marcou a cultura política carioca. Ainda hoje estes dois lados duelam no Rio de Janeiro em figuras de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, também carismáticos e cotados para a Presidência da República, mas que ficaram enlameados e presos por envolvimento com os padrões clientelistas de corrupção da política contemporânea.

É uma cidade nacional que tem dificuldade de lembrar que é composta por inúmeros bairros e “comunidades” onde adota-se práticas não muito diferentes daquelas do mais distantes rincões do interior do Brasil. Um outro trabalho clássico de Eli Diniz sobre a máquina política chaguista demonstra bem isto. Mas este vale uma outra resenha.

Vinícius de Carvalho
Vinícius de Carvalho
Graduado em Administração (UFMT) Especialista em Administração Pública (UFMT) Mestrado em História (UFMT) Professor universitário de graduação (FEICS) e pós-graduação em várias instituições. Autor de dois livros e diversos artigos na área de gestão pública, história política e políticas públicas. Gestor Governamental do Estado de Mato Grosso desde 2001 Sócio e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (2012-2014) Ex-Presidente da MT Participações e Projetos S.A. do Governo do Estado de Mato Grosso (2015-2016). Analista político, com participação na internet, jornais e no programa de TV JMT, Conexão MT, O Livre da Bandeirantes e do programa de Rádio “Chamada Geral” da Mega FM.

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