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Resenha Sobre História Eric Hobsbawm

Resenha

Sobre História

Eric Hobsbawm

Editora Companhia das Letras

 

Eric Hobsbawn é, a meu ver, o maior historiador do século XX. Sei da polêmica envolta nesta escolha, mas assim o considero por sua extensa produção e também por ter ultrapassado os muros acadêmicos. Sua quadrilogia sobre Idade Contemporânea abrangendo Era das Revoluções, do Capital, dos Impérios e dos Extremos tornaram-se referência para análise do período de 200 anos que começa com a Revolução Francesa em 1789 e termina com a queda do Muro de Berlim e o fim do socialismo real em 1989.

Mas qual era o segredo de Hobsbawn? Que metodologia ele seguia para contar a história e torná-la acessível o grande público? No livro “Sobre História” Hobsbawm reuniu vários artigos, palestras e conferências que proferiu ao longo do tempo, nas quais reflete sobre as regras que regeram a sua historiografia.

Ele aborda temas como a relação entre historiadores e outros pesquisadores, os tipos de história praticados, a questão da problematização e das interpretações e o conceito de verdade. Um aspecto particular pelo qual Hobsbawm recebeu muitas críticas foi sua filiação ao marxismo, a exemplo de outros autores britânicos como Edward Thompson, Christopher Hill e Perry Anderson.

Foi mais um caso de mistura entre orientação teórica e militância política que é tão comum no meio acadêmico, em particular na área de Ciências Humanas e Sociais. Muitos entendem ali que ambas andam sempre juntas, sob pena de dissociar teoria e prática. E os destinos do socialismo em nível internacional foram cobrados de Hobsbawm. Mas ele sempre fez questão de ressaltar a validade teórica e analítica dos conceitos marxistas e mesmo a importância da Revolução Soviética para os destinos da humanidade. Tanto que o subtítulo de um dos seus livros mais famosos é exatamente “o breve século XX (1917-1989)”, balizado pela experiência soviética.

O leitor poderá encontrar ainda o uso da história da previsão do futuro; a evolução da história; a história social; a relação entre historiadores e economistas, muito importante na história econômica; a questão do engajamento dos intelectuais que já abordei; a história britânica e a escola francesa do Annales; a volta da narrativa, o pós-modernismo; a história vista de baixo;o presente como história e outros temas.

É possível ver, portanto, que Hobsbawm opina sobre as principais controvérsias que permearam a discussão sobre teoria e metodologia da história nas últimas décadas. Ele se posicionou e permitiu que seus alunos e leitores pudessem aprofundar nestes debates e entender os seus recortes e opções metodológicas. Isto é muito importante, em particular para estudantes e pesquisadores na área e em outras afins, defrontados com o desafio de produzir história e aplicar todas estas discussões abstratas aos seus objetos concretos.

Não se trata de algo simples, uma vez que boa parte desta renovação adquiriu caráter doutrinário ou até ideológico, com pouca ou quase nenhuma aplicação prática. Seriam apenas escolas, correntes ou quase partidos que se formaram, com baixa necessidade de fundamentação.

Hobsbawm deixa, portanto, mas uma contribuição para a ciência. Além de narrar a história e facilitar em muito a compreensão dos acontecimentos contemporâneos, nos fornece também sua caixa de ferramentas e biblioteca para realizar tal intento. É uma leitura imprescindível para quem pretende produzir história de boa qualidade

Vinícius de Carvalho
Vinícius de Carvalho
Graduado em Administração (UFMT) Especialista em Administração Pública (UFMT) Mestrado em História (UFMT) Professor universitário de graduação (FEICS) e pós-graduação em várias instituições. Autor de dois livros e diversos artigos na área de gestão pública, história política e políticas públicas. Gestor Governamental do Estado de Mato Grosso desde 2001 Sócio e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (2012-2014) Ex-Presidente da MT Participações e Projetos S.A. do Governo do Estado de Mato Grosso (2015-2016). Analista político, com participação na internet, jornais e no programa de TV JMT, Conexão MT, O Livre da Bandeirantes e do programa de Rádio “Chamada Geral” da Mega FM.

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